terça-feira, 8 de julho de 2014

Porque o direccionar de almas
É desperdício de tempo entre as nossas calmas,
E desassociação de ímpetos de amor.
Pois o que o calor traz
Não é mais que o que se faz
Depois do frio,
Pois, e eu só me rio do entretanto,
Que palavra mais gasta
No instante que se culpa.
Não se desculpam carinhos...
Sem que a ingenuidade lhes falte.
Vou perder o que joguei.
E ganhar tudo o que não sei,
Já sem o ler,
E escrevê-lo sem nele crer
Não é amor,
É pudor à solidão
Que nos encanta, que nos espanta
O coração.
Dorme-me no frio, se me tens,
Que o calor em que não vens
Não me traz calma,
Destrói-me lentamente a alma.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Queda de anjo em pedra mole
Não me faz dura
Tempestade de quereres nas minhas feras.
Enfurecem-se ao relento as primaveras
Aguardando do amor as pobres curas.
Se adoeço em não querer, quero-te tanto,
Oh possível do entretanto
Em mim, deveras.
Não me deixes falar tanto
Dessas feras,
Que o meu anjo não tem asa que as segure.
Sussurra-me tu de entre os teus segredos,
Ao ouvido, do amor, o que me cure.
A minha sombra, essa,
Deixei-a pelo caminho à espera,
Do nascer do dia, no qual impera
A desavessa vontade do amor, Que me atravessa
Além do avesso em mim tropeça
Com furor.
E ao amanhecer, reza a loucura
Que a verdade, por mais pura,
Age ao pudor.
Fico-te à espera, amante,
Depois deste, um outro levante,
Que amanheça, entretanto,
Com fervor.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

A seguir, ninguém ganha,
Ninguém sobe ao pedestal.
É tudo produto da mesma artimanha,
Filho bastardo do Reino Animal.
A seguir, derrubados amores,
Ninguém ganha o artifício,
Gastam-se vontades no ofício
Para não haver vencedores.

A seguir ao querer mais...
Do sonho, outro que tal,
Gasta-se o desassossego,
Toda a coragem, do medo,
E ninguém ganha, afinal.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Deixem rogar pragas a quem reza ao esquecimento,
Só dele se não liberta quem tem medo.
As orações que escrevem que se fiquem cá na Terra,
Que o céu não preza por quem dele se liberta.
O esquecimento vem cedo,
Não te mintas, o esquecimento vem cedo.

domingo, 8 de junho de 2014

Não quis escrever poesia, de todo.
Hoje deixo-a no meu grande modo
Do não sentir, perdida.
E a rima da euforia desmedida
É o teu lema, não o meu.
Nem sequer é meu o tema, a cor, ou o céu,
E porque não quis escrever, de todo, poesia.

Tanta gente inventa, tanta gente tenta,
E eu sinto-me tentada a não tentar,
Escorrega-me a tinta na tela atenta
Do nem sequer querer pensar.

Bendito cansaço que me segura
A impertinência de me mandar mais que eu.
A minha mão é indecência pura e crua,
Guarda a demência de tudo o que é meu.

Não quis escrever poesia, não quero.
O que deixo aqui são restos de palavras.
Nem o amor, a raiva ou tudo o que é severo
Me consegue prender nessas amarras.

São vãs, caladas, e fugazes
As silenciosas presas das palavras.

sábado, 3 de maio de 2014

Também eu tenho os meus medos.
E achas que alguma vez daria, medos postos à parte?
Se à parte se partilhasse o impossível,
Em estradas paralelas seria invisível
O conforto longe dos medos.
Também eu tenho os meus medos,
E esperanças corrompidas
Nos meus credos.

Se te queres ficar, fica-te.
Os meus tardes serão os teus cedos.

domingo, 27 de abril de 2014

Saudades nem sei do quê,
Não sei quem mente nem sei quem lê,
Importantemente nada importa
Ao inconsciente que se eleva,
Nem ele sabe quem o leva.

Saudades, porquê?
Do que antes pisei ficou a marca do sapato no meu pé
Inconscientemente, o que mente a saudade?
Não é ela decerto a verdade, não é ela decerto quem vê...
O que o meu coração sente.

Detesto dar poemas à saudade.
A saudade inventa-se,
E ao peito que é indiferente,
Dá-se saudade.
E a saudade alimenta-se,
Parasita do coração.
Deixa-me por antes os pés assentes no chão.
Braga, 23 de Abril de 2014

Para que o coração se apague como vela acesa em chuva,
Não tolero a força só de não ter como o inventar.
É o castigo mais carente, água estagnada mas turva,
De um mar que deixou a praia p'ra não ter que a inundar.
E foi para longe da chuva que se perde na corrente,
Porque chover sem destino é ter tudo e nada para amar.
Braga, 23 de Abril de 2014
 
Se calhar caír o céu nestas estribeiras,
Pairante no conforto de o não ver
Serei eterna efémera ardente onde semeia
A vontade que não tem de em mim crescer.

Configuram-se castigos onde o tempo em si tropeça,
Da alegria que na aparição presente
Se corroi, tal é o pranto que começa
No fim onde fala o peito e a voz mente.
...
Supremacia que é quente e me ligeira
O pensamento que bate sem se ler,
Já não sei escrever então dessa lareira
O frio que em mim se abate sem crescer.

E procria o amor-perfeito em flor vibrante,
Com carinhos que nele mal me fazem crer
Para deixar vestígios secos de uma amante
Que há escondida algures à espera de nascer.