quarta-feira, 7 de março de 2012

Lábios rosados sem cor aparente
Escrevem a doçura de alguns traços.
Deixando-me passar por quem não quer ser gente,
Fico-me caída de beijos,
Imponente.
Na estrada deixam-se os passos governar o caminho,
Abaixo do céu desigual.
E esta necessidade de fugir ao carinho,
Faz-lhe mal.
Lábios rosados que, da cor dormente,
Se deixam ficar.
Não servem mais para dizer-se gente,
Ou para amar.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Quero ser feita de areia.
A Primavera vem feita de estilhaços,
Como a poesia que não se completa.
A cidade vem aos poucos,
E a natureza deixa-se cair,
Aos passos.
Sou pequena no vento
E pesada na água da fonte que paro.
Quero ser feita de areia,
Alheia de tormento,
Alheia de que ele seja raro.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Parece-me que já não sentes
O vento a dormir.
Parece-me que não assobias
As palavras.
parece-me que adormeces
Sem te veres sorrir.
E que te imprimes amarras.

Parece-me que já não sonhas
Com castelos.
Parece-me que já resguardas
Os suspiros.
Parece-me que não te deixas
Sequer tê-los,
E que deambulas sem senti-los.

Parece-me que não sei
Continuar este poema.
Ensinei-me a sonhar,
E embalei-me nesse dilema.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Talvez seja do ar,
Talvez seja do frio ou do pouco calor.
Talvez seja do ar que não consigo respirar,
Ou do indefinido amor.

Talvez seja do que não é,
Do que perde a sua estrada,
Ou quando há vento no caminho.
O vento que sopra gelado
Vem de encontro ao meu carinho,
E o carinho abandonado,
Já não se faz, nem do nada.


Talvez seja do sol,
Que frio, se esconde no céu limpo.
Talvez seja do silêncio que decresce.
Talvez seja do tudo que não me minto,
Ou do que desce.

Talvez não seja.
Talvez não seja nada.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

É só para dizer que chorei a tua morte
Antes da ida.
E nesta cadeira onde agora me sento,
Não sei rimar.
Perdi sem quereres saber o que é no certo
A vida.
E deixei-me afundar.

É só para dizer que a outra coisa que te digo
Não pede certeza.
E a certeza do que disse não é pronta.
Já fui de criar crenças na crença
Desta fraqueza.
Muito mais que o que ela conta.

É só para dizer que mais não choro
Que o não saber rimar.
Pois vivo na fantasia de que o sei
Sem querer falar.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

"Hoje apetece-me um 'por acaso'
Ao acaso de que o tempo não se tenta.
Espera-se tentando assim que o tempo
Seja apenas o que a nossa mente inventa.
E sento-me no banco do momento
... À espera daquilo ao que chamo acaso.
É certo que não é, tal, mais que o tempo
Que nunca se pensou.
Ou que nunca foi esperado."
Já quase no nevoeiro
Se soltam gritos de fugidia brancura
A paz que de ela vem, como do frio,
Deixa-se escorrer pelos lábios
Como ar quente que se solta em disparia
De um mundo.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

É ver as horas passar
Sem contar o tempo.
O tempo leva-o longe, o vento,
Achava querer-se amar.
Amar é longe no vento
E perto afogado no mar.

É ver as horas cair
De tempo contado,
Deixá-las querer-se matar.
É ver as horas cair,
É ver o tempo cair,
É vê-lo ir para longe com o vento
E lavá-lo afogado no mar.
Saberá o tempo do vento
Beijar o tempo do mar?
Tudo se resume a tempo:
Ao tempo que queremos ter,
Ao tempo que queremos dar.
Achando que o pensamento
Sozinho te irá lá levar,
Não é uma questão de tempo,
Mas sim de saber amar.

Já sou velha de tortura,
O que dói, sei, não vou torturar
Se sei bem que bem do tempo
Não há vida num momento,
Nem cardo para a agarrar.
E tirar vida do tempo
É fardo de suportar.
Não se vive de momento.
Acorda. Aprende a amar.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Tocar o sol nascente onde se toca o ocidente,
E ser inteiro?
Descer até ao mundo onde o mais certo é ser-se imundo,
E ser-se inteiro?
Como ver-se nesse castelo....
Porquê tocar o sol se nunca mais ele é nascente,
Porquê descer-se ao mundo onde não há mais ocidente,
E ser-se inteiro?

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Tenho raiva ao medo que me inspira
E transpiro essa raiva ao meu sufoco.
Sou cúmplice da treva que me mira
E vejo no terror o meu conforto.

São negras as nuvens com que sonho
E levam-me a voar no céu sem vento.
Que trevas serão essas, se me imponho
Ao sonho sem sabor e ao frio sem relento?

O perto não é perto nem é longe
O longe sem querer não me é devoto.
E fico perto sem querer nesta distância que me foge,
Desse longe onde me leva este céu morto.