terça-feira, 8 de junho de 2010

Vou deixar de acreditar
Na chuva que cai,
No vento que sopra.
Vou deixar de acreditar no impossível,
Fugir ao que desejo, inatingível,
Pois força é pouca e dura, parte e vai...

Vou deixar de lutar,
Porque o que finda,
Finda sem saber onde se cai.
Vou deixar de acreditar que a chuva rega as plantas,
Que o sonho comanda a vida,
Pois no fim de tudo o que vem, sempre vai.

Vou deixar de acreditar.

domingo, 6 de junho de 2010

Sonho em silêncio

Vou calar-me.
E comigo vou calar a noite, as estrelas,
As nuvens que as tapam.
Vou fechar os meus olhos nos teus olhos
E nunca mais acordar...
Vou saber-me desejada no beijo que te vou dar.

Vou calar-me.
E ao sono que me afoga por ser noite,
Por ser lua.
Não quero ser tua, não quero ser minha.
Apenas me vagueio pela rua.

Vou calar-me.
E tirar às palavras o sentido que não têm.
Escrever somente em gestos,
Falar somente em actos...
Ouvir-te...De ouvidos tapados.
Ver-te, vendada.
Tocar-te...
Talvez onde exista o nada.

Mas vou calar-me,
Perdida no silêncio do sonho de um sussurrar.
E com ele vou acordar.
Despertar.
Recordar.
Sofrer.
E calar-me.
Podia desarmar o mundo só para ti,
Se fosses Rei.
Desacabar o brilho das estrelas,
Se fosses céu.
Como poetisa antiga,
Escrever o impossível,
Isto, se fosses meu,
Inatingível.

Mas vou deixar-me de ser sonhadora
Pois sabes que no sonho não há cura.
Apenas uma dor desoladora
De esperar o que não vem, leva à loucura.

E vagueio-me por coisas que disseste
E que por sinal, ouvi, sem ser calada.
Mas imploro-te o silêncio no que leste,
Ao silêncio rogarei a madrugada.

Mais não digo, são demais estas palavras
Para quem não ouvirá, decerto, a lua.
Gostava que fosses Rei, que fosses Céu,
Poesia num mundo que não é meu.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Hoje, quando apagar a noite, verei a lua.
Prometi-lhe que a desenharia nua.
Mas não será hoje...
Pensei que a um sonho me entregaria.
Sem querer, vi a lua fugir, dia após dia,
E com ela o que há de bom e de mim foge.
Diz-me que serás rei, mais que a utopia.
Promete-me, na cor, que serás puro....
Pois o branco que me afunda agora é negro,
E o solo, um dia mole, agora é duro.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Vou lá fora.
Vou lá fora molhar os pés na chuva.
E se não estiver a chover, esperarei,
Pois na esperança me afoguei um dia.
Aquela esperança que julguei ser o que queria,
Mas sei que não me afectarei.

Vou lá fora.
No som da chuva encontrarei o meu silêncio.
O que me pedes, eu não sei, mas sei que em mim não há pretensio.
Se tu me julgas são certezas infundadas
O que tu usas p'ra fundamentar mentiras que em ti tragas.

Vou lá fora.
Vou esperar que anoiteça.
Não liguei a televisão o dia todo,
Nem por isso é algo que me enriqueça.
Vou lá fora respirar o dia quente que sonhei

E esperar que chova chuva para sonhar que me afoguei.
De resto, não me aconselhem.
Já me afoguei em águas mais profundas,
Sem sequer molhar os pés.
E agora, só me resta respirar onde me afundas e sonhar que estou a leste do meu sul, que perco o meu norte ao olhar ao meu poente.
Vou lá fora.
Vou lá fora molhar os pés na chuva.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Olha por mim,
Quando ouves as ondas do mar dentro de um búzio...
Olha por mim,
Quando a sua espuma bate nos teus pés.
Se não olhares por mim, então não sei quem És.

Olha por mim,
Se no fundo as estrelas têm um encanto...
Olha por mim,
Se me cobres, lentamente com o teu manto, ó Rei.
Se não olhares por mim, então não sei se o sei.

Olha por mim,
Por mais longe que eu vá, sabes que tento.
Olha por mim,
Se isso em Ti te cria algum alento.
Se não olhares por mim, então não És o vento.

Olha por mim,
Se algum dia foste lua nova,
Olha por mim,
Se algum dia me deste alguma prova, de que olhas por mim.
Olha por mim,
E rezarei sem termos ou sei rima,
Pois saberei quem És,
Pois saberei que sei,
Pois serás Tu o vento,
Que me leva sem tormento.

sábado, 3 de abril de 2010

Lá fora o tempo ruge
Com a voz do desconhecido feita em vento.
Desinvade-me de medos e tristezas!
Leva-me p'ra longe num momento.

E agora, fico-me na campa das palavras.
Que porque não deixei, não foram mágoas,
Que porque não deixei, nem bom prazer.

Do medo fica apenas a loucura
De não me ter vencido desta cura
De simples ter fugido do meu ser.

Não há mais do que cores para ser pintadas
Não há mais do que palavras mal ditadas
Não há mais do que sonhos sem se viver.

E agora, fico-me sem podres na pureza,
Sem escuro do qual algo me proteja,
Sem frio para que surja o coração...
Não tenho a minha mão.
Perdi toda a razão.
E nada tenho. Nada noutra mão.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Não percebo

Não percebo:
Das palavras tira o vento o seu sentido;
Não se ouvem, nem suspiro, nem gemido;
Não se escuta, a não ser falsos vapores pela pele quente.

Se me dói?
Dói-me na alma o que no corpo tem guarida
E é da poesia o medo que me afasta,
E da mente o que no coração da pele me torna casta,
Talvez por me ter entregue assim me rói.

Não foi porque me dei cedo, sem certezas de me ter,
Mas certezas de me teres é que me levaram sem medo,
É que me desarrastaram por mentiras no prazer.

Foi por ter fechado os olhos ao que foste, que me arrasto
E agora, por os ter abertos, vejo, sem me ter.
Mas vou-me ganhando aos poucos da mentira do prazer.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010