sexta-feira, 16 de abril de 2010

Olha por mim,
Quando ouves as ondas do mar dentro de um búzio...
Olha por mim,
Quando a sua espuma bate nos teus pés.
Se não olhares por mim, então não sei quem És.

Olha por mim,
Se no fundo as estrelas têm um encanto...
Olha por mim,
Se me cobres, lentamente com o teu manto, ó Rei.
Se não olhares por mim, então não sei se o sei.

Olha por mim,
Por mais longe que eu vá, sabes que tento.
Olha por mim,
Se isso em Ti te cria algum alento.
Se não olhares por mim, então não És o vento.

Olha por mim,
Se algum dia foste lua nova,
Olha por mim,
Se algum dia me deste alguma prova, de que olhas por mim.
Olha por mim,
E rezarei sem termos ou sei rima,
Pois saberei quem És,
Pois saberei que sei,
Pois serás Tu o vento,
Que me leva sem tormento.

sábado, 3 de abril de 2010

Lá fora o tempo ruge
Com a voz do desconhecido feita em vento.
Desinvade-me de medos e tristezas!
Leva-me p'ra longe num momento.

E agora, fico-me na campa das palavras.
Que porque não deixei, não foram mágoas,
Que porque não deixei, nem bom prazer.

Do medo fica apenas a loucura
De não me ter vencido desta cura
De simples ter fugido do meu ser.

Não há mais do que cores para ser pintadas
Não há mais do que palavras mal ditadas
Não há mais do que sonhos sem se viver.

E agora, fico-me sem podres na pureza,
Sem escuro do qual algo me proteja,
Sem frio para que surja o coração...
Não tenho a minha mão.
Perdi toda a razão.
E nada tenho. Nada noutra mão.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Não percebo

Não percebo:
Das palavras tira o vento o seu sentido;
Não se ouvem, nem suspiro, nem gemido;
Não se escuta, a não ser falsos vapores pela pele quente.

Se me dói?
Dói-me na alma o que no corpo tem guarida
E é da poesia o medo que me afasta,
E da mente o que no coração da pele me torna casta,
Talvez por me ter entregue assim me rói.

Não foi porque me dei cedo, sem certezas de me ter,
Mas certezas de me teres é que me levaram sem medo,
É que me desarrastaram por mentiras no prazer.

Foi por ter fechado os olhos ao que foste, que me arrasto
E agora, por os ter abertos, vejo, sem me ter.
Mas vou-me ganhando aos poucos da mentira do prazer.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

domingo, 14 de fevereiro de 2010

E assim morre o desassossego,
No local onde a esperança já foi medo.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ficou no vento que voou,
Não veio mais.
Essa tristeza só ficou por confiança
De que em tempos irá ser sempre o meu cais...
Mas não, e o tempo a levou.
Nem a saudade já tolera a desesperança.
Nem a esperança fica,
Derreteu metais.
E o que espero vem da morte,
Com certeza.
E da morte pouco mais há que a tristeza,
Mas riqueza a mais que a morte
Não se estica.
Ficou do vento que passou,
Essa tristeza que me engana por ser mágoa,
Mas que é mágoa nunca mais justificada,
Porque a morte foi o vento que a levou.
Ficas tu, do vento,
Que por matéria que és, não voas mais.
E a saudade dir-me-á que ficarás.
Nem o vento tu contigo levarás.
Voas aqui, nas minhas nuvens,
Mas sei que estarás nas estrelas com encanto:
Esse brilho que não é o do entretanto,
Esse brilho que, de luz, dá muito mais.
Ficas, e não vais.
Nem com o vento que voou desistirás,
Pois és força, e ao vento resistirás,
Pois és vento que não voa, ficarás.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Cansei-me de ver o mar sem peixes,
De nadar no seu sal e ser poeta.
Cansei-me de me perder em desleixes
Das palavras de quem diz ser vil profeta.

Estou lesa do que fui por não me ser,
E no fundo só sei qu'isso me mata,
Mas digo não me permitir mais ser
Serva daquele que me faz dizer lata.

E no fim das palavras só há espuma
Do mar em que nadei sem ser sereia...
A sereia que fui agora ruma
No longe do que em terrenos semeia.

E peço mais uma vez, não me peças
Para escrever palavras de humildade...
Ando à procura de arma que me meça,
Sem querer ou exigir serenidade...

Um dia quiseste-me ser poeta
para escrever em ti palavras soltas...
De tudo o que foi limpo, estou liberta,
Por estar presa nas ruas onde escoltas.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

E encontro-me assim. E a vontade de escrever é muita, combatendo a falta das palavras. É como a vontade de amar... A vontade de amar e ser amada é tanta, mas faltam os sorrisos, faltam as loucuras, falta o amor... E a vida é assim como um poema. E os meus versos estão mais soltos, já sem rima. E no tempo em que procuro o que me lima só me limo mais o peito, tamanha dor....

E estou assim, sem saber onde escrever mais as palavras, sem ter palavras para escrever. Esperando, no imaginário do consciente, que é margem do inconsciente, aquilo que sei que não vem. E talvez o saiba para o meu bem.

Não sei. E esforçando para o saber, sei que me mato. Aos poucos e poucos vão as linhas do comboio das palavras, e o comboio anda para trás. Sinto-me morta, porque não sei o que ele traz. E, no suspirar do meu caminho, ele sopra, mas com o seu vapor é tudo o que ele desfaz.... Não sei.

Talvez entenda em ti o que não vejo, mas não sei quem és tu nem o protesto, e o que me engana em mim é essa dor, que por não ter amor, não a desejo. E atormenta-me o calor da tua voz, quando falas frio, quando não te ouço e te procuro no vazio... Não sei quem és. Não te vou procurar, porque não sei de onde vens. Não quero fugir de ti, porque não sei se existes e não sou louca.

Esta vontade de amar só me é fatal, e a fatalidade em si não me é banal. Mas por seres em mim punhal é o que me encontra. No fim, ainda te procuro, sem saber quem és, sem te entender, sem te perceber, sem te existir...

sábado, 9 de janeiro de 2010

gostava de ser "poetizada"
de sentir que para alguém sou como um poema
gostava de me sentir pensada sem palavras
e amada sem versos
gostava de ser poema
e viver sem me rimar
ser declamada sem ar e sem descanso nas amarras
nem que fosse só um minuto
ser escrita sem saber
nos sentimentos de alguém,
ser tudo o que ele pode ter...
e não morrer
por ser poema
e ser poema sem ter tema
e ser amada sem ter ar,
vivida sem respirar
e no fim ficam palavras,
mas palavras sem escrever serão tudo o que as quiser....
gostava de ser poema,
e ser escrita sem ter lema ou sem razão
desenhada sem lápis por uma mão
e lida como quem ama...
e lida com coração



(improviso)
Que neve.
Que neve, que no gelo é a fartura.
Que o tudo do que há no medo, o gelo fura.
E penetra.
Que neve.
Ou que o gelo da ingraça me entretante.
Se é tudo o que me querem,
Então, neve.
Não encontro bateria no que dão,
Não me deixam encontrar-me para a ter.
E de toda a alegria que há no chão
Não me importo de rastejar p'ra viver.
Mas então, que neve.
E molhada das loucuras eu me seco.
Porque o tempo já não há, nele não me perco.
Se gelada depois fico,
Quero gelo que derreta,
Não aquele que me congela num castigo,
Não aquele que me persegue sem razão,
Mas aquele que alegria me prometa.
Que neve!